Diálogos Sobre o Espiritismo — Capítulo 1

— “Jesus foi tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para lhe servir de guia e modelo moral na observação das leis divinas e naturais”. Ah… como é engraçado que os atuais seguidores de Jesus fazem justamente o oposto…

— Ei, Sophia, o que você está fazendo aí?

— Lendo…

— “Jesus: Nem Deus, nem homem”, Guillon Ribeiro. Hum… é bom?

— Muito, mas acho que você não iria gostar dele.

— Hahaha… De fato! Só o título vai totalmente contra tudo o que eu creio a respeito do Filho de Deus. Mas não vou te aborrecer com isso. Depois que você terminar você me fala o que achou!

— Ah, eu termino depois! Senta aqui, Lucas! Me faz companhia até meu pai chegar.

— Ué, vai embora com o “papai” hoje? — Soando debochado. — O que aconteceu com a van?

— Avisei o moço lá que não precisava me esperar, por causa da prova. Aí, pra não ficar incomodando aquelas nojentas lá que ficam olhando pra gente com cara de bunda, achei melhor já nem voltar com ele hoje!

— Hahahaha … ai ai Sô… você é “mó” comédia, sabia?

— Eu sei! — rindo muito.

Após uma pequena pausa, Sophia resolve voltar ao assunto sobre Jesus:

— Mas aqui, Lucas, me fala: o que você pensa de Jesus?

— Foi o maior homem que já existiu. Modelo de perfeição, amor, bondade. Um grande líder! Mas ao mesmo tempo, Ele é o próprio Deus.

— Concordo… em parte! Certamente Ele foi um homem bem à frente de seu tempo. É igual eu tava lendo aqui… Ele foi um guia espiritual das leis divinas… um espírito iluminado, perfeito… vivendo uma missão muito nobre.

— Espírito iluminado?

— É! Espírito iluminado. Ah… desculpe… às vezes eu me esqueço que você não é espírita. Hihihi…

— Sim. Devo ser uma besta quadrada, né? Um ignorante. Hehehe…

— Nãooo! Claro que não. Não quis te atacar, você sabe! Mas eu sei que os seus “irmãos”, não você, acham que a gente tem demônio, fazemos macumba, somos bruxos, feiticeiros, maus…

— E não é verdade?

— O que?!

— Hahaha! Calma, “tô” brincando! Não… eu não sou assim. Sou contra estereótipos. Não conheço muito dessas coisas de candomblé, umbanda e etc.

— Eu sou Kardecista! A gente é bem diferente dessa ideia comum de macumba. Nossa crença é mais científica e filosófica.

— Me conta um pouco.

— Claro! Você ficaria surpreso em saber que somos cristãos, assim como você.

— Sério? Por que vocês também são cristãos?

— Porque cremos na bíblia. Em Jesus. Talvez não da maneira como vocês entendem. Mas é que recebemos… quer dizer, Kardec recebeu uma revelação especial a respeito disso tudo.

— Um “revelamento”, você quer dizer.

— Hã?

— Hahaha… nada… vai em frente…

— Estou achando que você vai querer debochar. Te conheço, Lucas. Tudo vira piada pra você!

— Não consigo evitar! Mas pode falar, eu prometo me comportar.

— Tá bom. Mas voltando, o próprio Jesus anunciou vários coisas a respeito das verdades espíritas. Também né, Ele recebeu o espírito do próprio Deus.

— Ele era Deus.

— Não, não tem como. Jesus nasceu como homem. Deus sempre existiu.

— Bom, na verdade a bíblia fala que Ele estava com Deus no princípio de todas as coisas, que Ele era o Verbo, ou seja, a própria essência do ser de Deus.

— Já vi que vamos divergir muito nesse ponto. Você sabia que o espírito de Jesus possui o mais alto grau de evolução? Ele é puro, perfeito. Bem próximo de Deus. Um espírito iluminado, entendeu?

— Se é assim, qual é a origem de Cristo, pra vocês?

— Bom, acreditamos que ele é um médium, um espírito altamente evoluído que retornou a esse mundo para elevar o grau espiritual da humanidade. Ele tinha essa missão. Então, ele foi criado na mesma era que Deus criou todos os espíritos, e tem evoluído desde então. A bíblia não o chama de primogênito?

Lucas assente com a cabeça.

— Então! Deve ter sido o primeiro espírito criado. Mas isso sou eu dizendo, não estudei essa parte em lugar nenhum. Mas faz sentido.

— É… talvez nessa sua perspectiva. Mas eu estou encontrando dificuldades em aceitar todo esse ensinamento como cristão.

— Ué, por que, Lucas? Os ensinamentos de Cristo são adotados por nós. Olha, dizem que somos capazes de usar uns 10% por cento do nosso cérebro apenas, certo? Jesus devia poder usar os 100%. É só ler lá os evangelhos, as falas dele, o que ele fez. Homem nenhum, sem o devido treino, ou sem a devida evolução, poderia fazer as mesmas coisas. Olha, lembra quando ele falou para amarmos os nossos inimigos?

— Quem falou essa foi o seu Madruga.

— Ah, cala a boca LUCAS! — Sophia se levanta, juntando sua bolsa e tirando a grama da sua roupa.

— “Peraí”, Sophia. Ele disse algo assim mesmo! É que essa frase me lembrou do chaves na hora! Hahahaha…

— “Affe”! Melhor a gente conversa depois. Meu pai está chegando, olha!

— Hum… tá bom. Mas aqui, não fica com raiva! Você sabe como eu sou “zoeiro”.

— Até demais! Mas relaxa, bobo. Amanhã você tem aula?

— Tenho. Só no primeiro horário. “Tô” com horário vago depois.

— Legal, eu vou ter uma aula de três horários seguidos. Mas ela sempre termina mais cedo e nunca faz chamada. Dependendo eu saio antes. Já passei mesmo.

— Aula de que?

— História das ideias psicológicas.

— Credo. Que chatice.

— Chatice é esses trem de cálculo e física de vocês. Coisa de doido!

Nesta hora, o pai de Sophia para o carro em frente à praça de serviços da universidade. Era um carro preto, de luxo, modelo sedam.

Depois de se despedir da amiga, Lucas foi pra casa em sua moto. Estava pensativo e com o olhar bem vago. Será que a conversa com Sophia abalou a sua fé?

continua…

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